terça-feira, 14 de outubro de 2008
As três faces da mulher
Amgine
E a boca quis falar

Que vosso coração espreita
E treme, chora, soluça
Pelo louco que vos vela.
Tu que és um sussurro
Olhai adiante dos olhos
De teu príncipe rústico
E enxergas a palidez do olhar
Desfalecido de um mudo.
Esse teu vulto calado
O lorde do teu pranto, labuta
Canta com a boca muda
Costurada pelas veias do amor.
Esta boca que pôs-se
Muda a recitar versos,
Num esforço quis falar-te
Porém, as veias prenderam-lhe
E os lábios então partiram-se.
Prata ouro Prata

...Ontem vi pois a prata ouro,
De tal ápice inimitável
Crepúsculo que nasce nas sombras
Como todos os dias de outrora.
Posto ontem pois, esse brilho
A incandescer num céu indiferente,
Pois as fazes incompletas vi
Fazes que a séculos não mudava.
Temo por essa bela jóia
Vossa pérola imaculada
Que tantos dias espreitara-te
A tua doçura, meiguice e magoa.
Treme-me a carne podre
Manchada em escarlate espargido
Na minha miserável árvore vital,
Enquanto tomba-me a vida
Numa ininterrupta cadeia medonha.
-A agonizar pranteio-me frenético
E deleitando o vosso leito
Vejo a lua novamente prata...
quinta-feira, 17 de julho de 2008
Pó de Castelo

... E se não fosse esse bem
Incurável loucura que destroça
A alma a vida a morte o soluço
De um choro de uma lágrima.
Se não sonhasse esse copo
Esse vinho. O que seria da areia
Quando comparada ao mar?
De que viveria o vento por vagar
Sem rumo sem túmulo sem emoção?
Sonhar... Que loucura vibrante.
Vácuo de ser de paixão.
Retorna a vida, amiga morte!
E detrói o corpo em lepra.
Oh! Antraz amante do meu ser
Retornará ao corpo mais uma vez?
Ou enjoaste da vil pele cansada?
... Pó como a terra sois vós
Como a areia como o ferro
O amoníaco o cobre o magma
Incandescente escarro
Das vísceras terráqueas.
Antes terra antes vulto
Preso pisado portador poético
Dos sonhos de um venéreo Andar...
Lembre-se de sua labuta
Lembre-se dos semblantes
Pois, todos ficaram iguais;
O solo é o escarro da terra
E somos nada alem disso:
Um monstro misturado
E finalmente fundido com o vento.
-Por compaixão!
Quando já não mais habitar em mim
Peço-vos um favor ilustre:
Queime meu corpo e das cinzas
Construam um lindo castelo.
Eu os vejo

E eu os vejo
Eu os vejo! Entrevados,
Entregues as sombras e gritando,
Em alta voz a Deus amaldiçoando
Por seus crimes depravados.
Monstros de rultilância derrotados
Cantam com ódio inda murmurando
E o certo rodeiam desfigurando
Com o coração e olhos vedados.
Cantam com escárnio essas feras
Cheios de ódio e irritantes chagas,
Ainda velando as mesmas pragas.
Ainda choram as quimeras
E ão de ficar a clamar
Pois, o certo não quiseram amar.
Gabriel de Alencar
Anjo de poeta

Anjo de poeta
No ranger de dentes
A poesia frenética do moribundo
Como se derrama de um negro vaso
O necta das flores recendentes
E nessa infâmia de poeta
Que no peito amante a magoa inda
Corrompe, e na vida destrói os sentimentos.
Espreita-me na ausência do teu encanto...
Tão belo puro anjo!
Nem as flores da alvorada revelam
Quão pura beleza há em teu coração,
Nem o brilho do sol ha. De ofuscar-te a palidez.
E nem desviara ele de ti meu olhar imóvel.
Quanto ao desalento do peito imundo
Tu encantas o coração dos poetas
E na maledicência desse, a velar-te.
Um murmúrio no desdém entre teus lábios.
No ressonar desse murmúrio teu
Ouço os segredos ásperos da franqueza
Dessas fitas róseas e invejáveis;
Quando na tua sinceridade te encontro
E para ti meu peito e meu amor
Espero apenas que me responda
Porque rejeita meu amor?
Porque rejeitar esses versos?
Se eles contemplam a ti
Não vedes que pedem por mim teu alento?
Não vedes que meu coração te espera
E nele todo meu amor e vivência?
Velo-te mesmo que apenas a morte me aceite.
E se um dia no leito da maldita amiga
For me tirada a esperança por ti,
Clamo a Deus que não te faças sofrer
E na glória da vida dos amores,
Peço-te ao menos um beijo
E nos teus lábios poder morre.
Gabriel de Alencar

