terça-feira, 17 de junho de 2008

Branca mulher de cisne



Mulher Branca de Cisne

Mulher branca,

Alva com a majestosa neve

De seios mimosos e lívidos,

Cheia de um falar em versos.


Debruças-te sobre os sentimentos,

Que ate os insertos

Sonham-te em profundo regozijo,

Abraçados com teus lamentos.


Mulher foste de poetas

E em devaneios murmuras-te

Com voz suave de violino,


Dormes com os cisnes

E a eles faz sonhar contigo,

Como sonham com o deslumbrante lago.


E teus olhos, brandos olhos,

Que são o principio do teu semblante.

Ah! Um cisne negro na palidez

De teus olhares incertos e expressões

E ele teu cisne amado,

Amou tuas magoas.

Amou tuas birras.

Gabriel de Alencar

A Irlandesa




A Irlandesa

Mulher de face branda

De andar meigo e sorridente,

Que o sol faz turba demente

Para brilhar nos campos da Irlanda;


Mulher irlandesa de sois e mares

Nas praias a cantar em luares

Repousando a face delicada

Na terra da poesia amada.


Em canções foste contemplada

E em versos te descreveram,

E em tuas magoas estiveram

Os poetas da alvorada,


Que outrora respiraram

O mesmo ar que respirava,

Quando em pureza te demonstrava

Para os campos que te amaram.


Amaram-te as harpas e as flautas

De elfas, mulheres, fadas.

A deleitarem deslumbradas

Vendo os ardores de tuas labutas.

Gabriel de Alencar

Pálida



Pálida

Inunda-me essas lágrimas a fronte

Quando no peito já não existe mais vida,

Como nos campos que não possuem flores,

Como a flor com espinhos causa uma ferida.


Desbotou-me esse olhar... E os lábios frios

Ousam de maldizer do meu destino,

Ousam de enche meu ser por ti de amores

E como o leproso das cidades antigas,

Sofro e canto esse fúnebre hino.


Entristeço-me nesse seio pálido,

E nesses lábios nunca antes profanados

Roubo-lhe um beijo em minha insânia,

Pois já agüentava mais minh’alma apaixonada

A velar-te nesse sonho.


Como um infame velei-te nesse sono

Tão deslumbrante meu anjo nesses campos

Pálida no encosto da tumba fria

Descansa o lindo rosto num belo luar

Enquanto tira da minha vida a alegria.


Tudo o que ouvia apenas o eco ao longe

E o som da minha própria voz a responder:

No luar apenas os campos vastos de flores mortas,

E no teu rosto a palidez dos meus sonhos.


Antes que à aurora se revelasse

Desci eu a tumba fria,

Ajoelhei ao seu leito puro e sussurrei minha ultima oração;

Encostando a fronte ao leito do anjo

Adormeci eu do sono seu,

Num último pedido a lâmpada dos amores:

‘’Prateia a cripita da minha amada. ’’


Gabriel de Alencar

Um princípio escuro



Um principio escuro

A carne é o principio do pó

E o espírito um murmúrio de vida.

Sangue em meio à pele ferida,

Um grito vazio e só...


Águas! E velejas em trevas?...

Um caminho obscuro é inevitável!

Marcas negras impregnadas. impecável

Vontade sedenta de negras ervas.


Murmúrios nas sombras o mistério.

Na escuridão delira, enterra.

Sua alma escura em meio à guerra

Tocada ao som de um saltério.


Se não ouve o falar dos sábios,

Não poderá ouvir de meigos lábios

O som da simples realidade,


E quando ouvirdes o pedido da morte

Não haverá para ti a mesma sorte

E nem tanto a mesma vitalidade...


Por horas a criança chora,

A alegria do mundo onde mora.

É realidade a vida, é vivência.

Perdida! Erradicada dependência.


É a desgraça sóbria e irrelevante

Murmúrios e chagas que irritam

E assim como doem. Imitam

Lepra de corpo e alma ignorante

.

E entre o pesar e culpa fremente

O poeta clama no ultimo suspiro...

‘’Sou um louco um mero demente

Esperando o badala do sineiro. ’’


Em meio à ruína. No cemitério

O vale longo e a bela serra

Está a verdade esboçada na terra,

Os campos escuros a morte e seu império.

(Gabriel de Alencar)


domingo, 18 de maio de 2008

sino Irlandes


Sino Irlandes

Um Sino badala na torre

Soa e depois morre

Prende a boca vultosa

Cheia de falas dengosas


E se refaz e se prende

Mistura-se, se desprende.

Sussurra singelo, Súbito.

A toar no óbito.


Antraz, antídoto, ambíguo,

De vorazes verdades. Vagas

Lembranças antigas, amargas.

Amantes antíteses e minguo.


Oh! Eteno do ébrio do reino.

Desfere o teu golpe em hino

E mistura o meu rum com teu vinho,


Depois morre como manda

Pela amada e meiga Irlanda

despindo-te do teu linho.

Gabriel de Alencar

Por ti um sofrer Sincero



Por ti um Sofrer Sincero

Um pensamento te faz nascer

Para na vida entristecer meu semblante,

Fazer nascer das cinzas do amor

A prova da minha vida nesse rumor.


Esse murmúrio em voz tremula

Que me insinua a desgraça,

Vêem para mim como o vôo das garças

Destituídas de suas penas.


É obra da vida solidão maldita;

Que corrompem os verdadeiros princípios,

E os sentimentos tornam apenas resquícios

Misturados com meus lamentos.


Foi por minha maculas

Não por teu viver gracioso.

Foi por mim e somente para ti

Que me deixei levar pela tristeza,

Para que essa me ensine a verdade

Sobre teus sentimentos Incertos.


É na angustia que aprendi a te amar;

A mesma dor da qual murmuram os poetas,

Porem, não hei de chorar por isso,

Por que não haveria sentido sem por a prova

Sem o meu amor por ti prova no fogo.


Por ti minha bela amada

Irei carregar essa mancha, em nome Daquele.

Que num pensamento te fez nascer.

(Gabriel de Alencar)

Versos de um Tolo



Versos de um Tolo

Não ha nada de novo na vida

Apenas a mesma humilde ignorância

Em leito infame estagnada ânsia

Que desabrocha e se revela lívida


Pois nessa vida escarnecida.

Que o amor me acusa repugnância

Veêm-me à mente a maldita infância

Incompleta, hipócrita e esquecida.


Já ao verme amigo e irmão,

Seja entregue o corpo e o coração

Para que na vida termine a guerra


E em meio a essa ruína

Escorra o sangue podre da carnificina

Para libertar-me dessa terra.

Gabriel de Alencar